Por que ouvir Música Clássica?

Posted by By at 12 May, at 05 : 11 AM Print

Por que ouvir Música Clássica?

Quem tem medo de música clássica? O nome “clássica” não é bom: sugere pompa e rigidez, o peso morto da tradição, a força do passado sobre o presente. Sugere distância e revência. Além de não ser bom, é tecnicamente errado, porque a música clássica abrange muitos outros períodos além do período clássico (século 18).

Mas as alternativas não são muito melhores: música “erudita”, por exemplo, carrega uma certa arrogância (o contrário seria a música ignorante?). Música “de concerto” talvez seja o nome mais politicamente correto, mas nesse caso onde fica toda a tradição de música litúrgica – cantatas, missas, réquiens, corais, motetos -, para não falar dos milhares de obras compostas ao longo de centenas de anos quando ainda não existia nada parecido com o que se conhece por um concerto? Na prática, música “clássica” é o nome consagrado, que não vai mudar, e o melhor então é explicar do que se trata, esquecendo as resistências do nome.

A música clássica é uma tradição ocidental que tem seus primórdios na Idade Media a mais de 1.500 anos, e cujas raízes vão mais de longe ainda. É o equivalente, no domínio dos sons, da literatura, no domínio das palavras. Só isso já seria o bastante para qualquer um se interessar pelo assunto. Desprezar a chance de ouvir Bach, Mozart ou Beethoven é impor-se uma limitação tão desnecessária e triste quanto seria proibir a si mesmo a leitura de Shakespeare.

A música clássica abarca os mais variados estilos e épocas: desde o canto gregoriano, passando pela polifonia medieval e renascentista, até as riquezas e sutilezas do barroco, as sinfonias e sonatas clássicas, a multiplicidade de estilos no século 19 e a reinvenção permanente das coisas no nosso. Um mestre medieval como Guillaume de Machaut (C. 1300-77) está tão distante do romântico Robert Schumann (1810-56) quanto ao barroto J.S. Bach (1685-1750) do modernista Igor Stravinski (1882-1971); mas todos têm em comum um vinculo com essa linguagem da música “estudada”. E este, aliás, talvez seja o traço fundamental: a música clássica é um cânone que vai se formando justamente á medida que as obras põem-se em relação umas com as outras. Um passo à frente afeta um milhão de passos atrás.

O que é preciso para conhecer a musica clássica? Começar. A disponibilidade do repertorio virtualmente inteiro em Cds, a transmissão por rádio e televisão e o numero crescente de concerto públicos torna cada vez mais fácil o cultivo da musica. A ideia de se embrenhar numa tradição tão vasta pode ser amedrontadora; mas qualquer obra é uma boa porta de entrada e ninguém precisa ser “erudito” para ouvir os compositores eruditos. O que é preciso é interesse, sem preconceito.

Convém tirar logo da cabeça que a música clássica é algo que deve “deve” ser aprendido, com vistas a qualquer propósito pedagógico, moral ou social. Parodiando o escritor Italo Calvino, pode se dizer que os clássicos devem ser escutados não porque “servem” para qualquer coisa. A única razão que se pode apresentar é que escutar os clássicos é melhor do que não escutar os clássicos. A diferença não tem medida para quem descobre o gosto da música.

 

Arthur Nestrovski

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